quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Livro de contos esmiúça arquétipos femininos

por Paula Dume,
para a Folha de S.Paulo

Mulheres dentro de mulheres tecidas por outras mulheres e descritas por um homem. O livro de contos "Matriuska" (Iluminuras, 2009), de Sidney Rocha, faz referência às bonecas russas no título e dá esse significado ao volume. São 18 contos sobre prostituição, miséria, aborto, ignorância e traição. A mulher é retratada de todos os modos, do violento ao exaltado, do arquétipo ao segmentado. A realidade brasileira, das violentas manchetes de jornal, está diluída na escrita de Rocha.
A estrutura dos contos — escritos em letras minúsculas — permite que o autor lhe conceda doses de romance. As microhistórias se entrelaçam, o amor se processa e a dureza da vida afunila os sentimentos e vivências das personagens para com os nossos dilemas mundanos. O escritor Marcelino Freire assina o prefácio "gravatas e borboletas". "Sidney tem o que eu aprecio em todo coração arredio: a pulsação. A verdade. O sentimento que está na linguagem. Nos sons que ele costura tão bem", disse.
No conto abaixo, extraído de "Matriuska", a ianomani Guadalupe é espancada e uma onça a salva. Começa a viver outra realidade, como Cleonice, mas há pegadas do animal dentro de si. De uma mulher que se renova e se torna outras, uma boneca dentro de bonecas, a protagonista despenca sob o mundo.
onça


guadalupe despencou do ônibus. fugia de roraima. era uma das mulheres do ianomani sorrento, da aldeia xaruna. certa noite ele a amarrou na mata e a espancou tanto que guadalupe mergulhou na escuridão do futuro. quando foram socorrê-la, o canto mais limpo. uma onça a levou, até hoje sabem. mas guadalupe que a onça não comeu despencou do ônibus. esmolou por dois anos. quando lembrou quem era, tratou de esquecer de novo. despencou do ônibus. o lugar parecia minas, e lá teve um filho, que um soldado do exército levou pra criar. foi ali que viu as placas das lojas. decidiu aprender a ler. mas a dona da pensão lhe traiu e teve de dar conta de um dinheiro do qual nunca viu nem a cor. se não tivesse experiência de cabaré, estaria na cadeia até hoje. mas o suborno para a carceragem lhe eu hematomas e gravidez. pra simplificar: nasceu morto. despencou do ônibus.
ramiro era peão de trecho de estrada. a onça de vez em quando comia a memória de guadalupe, e ela se disse Cleonice, vinda do pará, prazer, A gente pode se ver à noite?, Estarei aqui, trabalho na lanchonete do posto, mas vou crescer, aprender a ler as placas. só digo que casaram. e que dezanos depois ramiro morreu e cleonice, arrastando os três meninos que haveria de carregar pela estrada, despencou do ônibus. só sei que os filhos se formaram todos, comendo do que a onça consentiu. há 200 anos cleonice trabalha na casa de um ministro. cleonice não soube responder Ministro-do-quê? quando essa semana foi se matricular na escola para adultos duma igreja da periferia de brasília. a velha quer porque quer aprender a ler as placas. os meninos do ministro adoram as histórias de cleonice. a mulher do ministro também se chama cleonice e por isso pediu para que ela usasse outro nome, Se você não se incomoda, é só por enquanto, não pega bem, você sabe, né. Incomodo não. E que nome a gente vai usar? a palavra guadalupe saiu de dentro da velha como bicho que desse um bote. de lá pra cá, cleonice vê guadalupe no espelho. e guadalupe não vê o dia e a hora de saber se foi mesmo uma velhinha quem pintou a onça que passou por aqui. e que despencou do ônibus.
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Matriuska | Sidney Rocha | Iluminuras | 96 páginas
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou na Livraria da Folha

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